CLASSIFICADOS CATEGORIA NACIONAL

CELEIRO (MELHOR POESIA TEMA “CELEIRO DA POESIA”)

Autores: Adão Quevedo e Jadir Oliveira – São Lourenço do Sul e Portão RS

Intérprete: Jadir Oliveira – Portão RS

Amadrinhador: Wladmir Guará – Nova Santa Rita RS

CELEIRO

Semeei sonhos e quimeras Pelas terras onde andei…

Das sementes que plantei Colhi trigo, fiz o pão,

Arei bem, meu coração…

Guardei meus versos singelos e o que restou de mais belo no celeiro da ilusão…

Foram safras de emoções, de guitarra e poesia, pra encher a vida vazia e espantar a solidão.

 

Sempre fui bom semeador!

Mas, às vezes, distraído não li o verso ferido na verga do meu arado, no boi lerdo, cansado, virando erva daninha,

para as sementes que eu tinha darem frutos e floração.

Abri sulcos pela alma para lançar a semente dos versos que não tem fim…

E descobri neste dia que um celeiro de poesia habita dentro de mim.

 

Sentei na volta do fogo, fiz o mate, cortei fumo e assim me estabeleci…

Proseando comigo mesmo dei vasa ao pensamento voltei nas asas do vento pra um tempo que já vivi.

Tempos de agruras de vida pela rudeza da lida nas brabas noites de frio,

tempos de alma sombria onde as safras de poesia são um celeiro vazio.

 

As dores que dói na carne pelas basteiras dos dias,

poderão virar poesia nas entrelinhas da história…

Porém as dores de dentro nos tiram a paz e a calma,

pois são feridas antiga que sangram dentro da alma,

roubando a chave dos sonhos pelos baús da memória.

 

Nestas visitas que faço, reascendo velhos luzeiros

busco na luz dos candeeiros, em amarelados cadernos,

os manuscritos internos de um tempo quase esquecido

que retorna, adormecido, pelos confins da existência…

 

Eu devia ter adoçado as penas e a aridez…

Arar… Plantar outra vez, renovar cada colheita…

Quando a esperança anda estreita, é preciso acreditar,

a vida é de quem sonhar, de quem usar a consciência.

 

Tantos celeiros ergui, perdi o senso e a conta,

de tantos lápis, sem ponta, de folhas brancas, em vão,

sem uma verga no chão, sem cova e sem semente.

Porém, o que mais surpreende, é que alma sente fome

e o mais mesquinho do homens, não é feliz sem poesia!

Entre a crença e a heresia, há que se velar a fé…

Ou o homem vive e morre, sem mesmo saber quem é…

 

Assim cruzei pelo tempo gastando a vida que eu tinha,

jamais saboreei as vinhas do meu labor sem sentido.

De que adianta ter vivido tanto tempo sem viver?

De que adianta ter gastado, meu vigor minha saúde,

entregando a juventude na busca insana do ter?

 

Até que um dia parei..!

Cansei de trotear a sozinho, mendigando algum carinho,

na solidão do caminho fiz um balanço de mim…

E me dei conta que eu era, sementeira de quimeras, ausente feito tapera,

sem ânsias de primaveras, com a alma embrutecida das estradas de onde vim…

 

Fui semente adormecida pelos estios desta vida que se olvidou de brotar…

Até que em fim despertei com a alma ensolarada, serenada,

enternecida e metáforas de vida singraram do meu olhar…

 

Arei o ventre da terra, escolhi novas sementes, acendi no coração a chama de semeador…

Me dediquei ao plantio, deixei pra trás o estio da seara dos sem amor…

Botei a junta no arado, lavrei campos e coxilhas,

fui abrindo novas trilhas escondidas no meu Eu…

 

E descobri nesta hora que a terra fértil de outrora que jazia adormecida,

por ser sedenta de vida aguardou pacientemente por uma nova semente.

Sabendo que o semeador andou ausente de si, distraído por aí…

Mas, em seu âmago, ela sabia, que ele um dia voltaria pois o sonho não morreu.

 

E eis-me aqui de regresso…

Voltei porque o mundo louco recompensa muito pouco aquele que anda a esmo,

Voltei porque me dei conta que aqui tem tudo eu quis

e basta pra ser feliz reencontrar a mim mesmo…

 

Das sementes de poesia que semeio todo dia quanto sonho floresceu…

Já não planto mais quimeras e as flores da primavera reconhecem quem sou eu.

Com as tristezas dos caminhos e as agruras dos espinhos não sofro nem, me comovo,

Pois enxergo todo dia meu Celeiro de Poesia cheio de versos de novo.

Autor: Carlos Roberto Hahn – Tramandaí RS
Intérprete: Sirmar Antunes – Porto Alegre RS
Amadrinhador: Mario Tresoldi – Osório RS

 

ZUMBI

No terreiro, se desfaz a madrugada.
Na alvorada, há flores já murchas no chão.
Ogum se foi. Ficou o Zé Francisco.
O Chico empresta o cavalo pra Ogum.
É dia vinte e um.
É novembro, e vai nascer um outro dia.

Mas a bruma esconde o sol.
E o dia parece acovardado e o sol acabrunhado.
Sabem que ontem foi o dia em que Zumbi morreu.
Não morreu, não! Zumbi não morre! Zumbi ninguém mata!
Não com açoite ou com chibata!
Ainda se ouvem os atabaques e o canto do povo:
“Zumbi, Zumbi, oia, Zumbi! Oia, Zumbi, mochicongo!”

Eu te permito, pai Ogum. Usa este cavalo para ver.

Então vejo canaviais ondulando com o vento.
O vento que move os navios-negreiros aportando em Pernambuco.
Trazendo da costa da África os negros. Pobres negros.
Yorubás, angolas, congos, minas, cabindas, quiloas, monjolos…
Homens, mulheres e … até crianças!
E uma princesa.
Aqualtune foi capturada. Vendida e trazida pro inferno.

Vejo um senhor-de-engenho, com terno de linho branco a fumar seu charuto.
Com seu chicote, um feitor acorda negros ainda não refeitos do dia anterior.
Bem antes de nascer o sol.
Que hoje, aliás, ainda não nasceu.

Vão para os canaviais, como fossem animais.
Às costas carregam medas de cana pro engenho.
Moenda. Fornalha. Muito se trabalha. Pouca é a comida.
A paga é nenhuma. Vão viver muito pouco.
“Que morram! Na África, há muitos pretos”, saboreia o feitor.
O feitor é negro, o chicote é escuro.
Na carne viva, nas costas vermelhas, o sal branco.
O açúcar também é branco. A dor é preta.

Vejo o açúcar nas mesas abastadas da Europa.
Com seu branco, ele adoça a vida dos brancos.
A Europa se lambuza com a doçura, mas não sabe do sal da chibata.

Mesmo com dor no corpo e na alma, há negros que não desistem.
A morte é um mal, mas é melhor que vergasta e sal.
A morte também é liberdade.

Vejo, bem claro, correr um menino. Livre.
Neto de Aqualtune, que os seus reúne. É Zumbi.
Zumbi comanda o Quilombo dos Palmares,
em Macaco, capital dos Palmares, capital da liberdade.

Na Serra da Barriga, foi gestada essa liberdade.
Mas a Europa queria o doce, nem que fosse com o sal nas feridas.
Nem a Bula papal prescrevia remédios.
O papa era Pio, mas nos engenhos não havia piedade.

Ao Império, Zumbi era uma afronta.
Zumbi não se entrega. A corte apela a um bandeirante feroz.
Não carece dizer seu nome. Era velho e tinha alma de fel.
Zumbi tinha zumbir de mel.
Palmares foi dizimada. Mulheres, crianças e velhos, todos pretos.
Mas Zumbi não foi encontrado.

Tempos depois, atraiçoado, Zumbi foi degolado.
Sua cabeça foi exposta na Capital.
Para provar que o herói estava morto.

Ah, mas não me levem a mal.
Na versão oficial eu não acredito.
Pois Ogum já tinha dito.
Ogum não é São Jorge. Ogum é Ogum.
Zumbi não morre, Zumbi é imortal.

Zumbi nasceu livre. Viveu livre. Sempre foi livre.
Está livre. Voltará livre. E vai continuar livre.
Como a brisa.
Mesmo que não haja sol.

Autor: Paulo de Freitas Mendonça – Taquara RS

Intérprete: Paulo de Freitas Mendonça – Taquara RS

Amadrinhador: Vladmir Guará – Nova Santa Rita RS

 

A MARGEM DE LÁ DO AQUERONTE

As margens do Aqueronte nunca foram irmãs gêmeas
porque também somos únicos na multidão ante o todo.
Possuem ancoradouros que só Caronte os conhece…

A margem que ninguém busca, mas que todos vão chegar
está além desta bruma, destas águas de lamento
diferente da de cá que é umbral dos terrenos.

É mentira que é o inferno indistinto para todos.
Pode ser para os que pensam que precisam de tesouros
para comprar seus fortúnios e pagar sua travessia.

Os cânticos lá são preces em poemas e metáforas
que energizam o ambiente em eterna mutação,
os silêncios, melodias e os praguejares, trovões …

Na verdade é construída pelo próprio pensamento,
energias emanadas que além se materializam.
É a eterna morada de onde se sai e se volta.

Existem campo aos campeiros com largas pampas, planaltos,
montanhas aos montanheiros, serranias aos serranos,
mares para os litorâneos e desertos aos beduínos…

Hay outras cores tão lindas que aqui jamais se vislumbra.
Só vê quem cruza penumbra sem temer a travessia.
É vida, um novo dia, depois de agouros noturnos.

Existem vazios e breus como tudo em toda a vida.
Há os que vagam perdidos, afogados no egoísmo.
Há os vestidos de luz, construídos de perdões…

Há os com brilho feroz que zombam do mal e a dor,
se aproveitam da fraqueza, sugando a seiva vital
e os de olhares sereno com amor e compaixão.

Existem mãos que amparam aos que chegam fraquejando
e jujos de todo o tipo para as cura mais cruentas.
As margens do Aqueronte são muitas e são distintas

Autor: José Luiz Flores Moró – Farroupilha RS

Intérprete: Priscila Alves Colchete – Porto Alegre RS

Amadrinhador: César Augusto Furtado – Xanxerê SC

 

UM OLHAR PARA CASTURINA

Eu vi Casturina no fogo de chão,

Na fôrma do pão que vai para as brasas,

Nas gastas bandeiras da roupa lavada

Secando as aguadas na cerca “das casas”.

 

Eu vi Casturina no céu da janela

Espelhando aquarela em matiz de manhã,

Limpando a parede barreada do rancho

E a trempe de gancho de pó e picumã.

 

Em torno da prole, de asas abertas,

Qual ave coberta de penas e sinas,

Na dura partilha do pão e do vinho,

Guardando o seu ninho, eu vi Casturina!

 

A vi sobre as águas barrentas do rio,

No canto vazio onde pousa a vassoura,

Na horta pequena de vime cercada

E na face queimada no sol da lavoura!

 

Eu vi Casturina nas mãos da parteira,

Audaz parideira no broto dos filhos…

No vento minuano lambendo os cabelos

Que afaga com zelo as bonecas do milho.

 

Eu vi Casturina postada em trincheira

No vão da porteira que dá pro “Cerrito”

E em cada partida de adeus e de fuga

Que a vida refuga no andar do proscrito.

 

Em noites de rondas, de causo e fogão,

Em que assombração é uma imagem teatina.

Nos olhos dos filhos, brilhosos de medo,

Contando segredos… Eu vi Casturina!

 

A vi enfurnada num fundo de campo,

Nos olhos de pranto por sinas malevas

E em cada coruja que arrulha tapera

Nos sóis de quimera que brotam das trevas!

 

Eu vi Casturina em cafés de cambona,

Em cada atafona faminta de milho

E na boca de cerne voraz de um pilão

Que sova no grão o sustento do filho!

 

Eu vi Casturina na cerca de pedra,

Na chuva que medra o dourar das espigas,

No som preguiçoso de alguma guitarra,

Na voz da cigarra e no andar da formiga!

 

Na boca de poço que engole a vertente,

Na corda rangente do balde na mina

E em cada gotinha que pinga da água

Espelhos da mágoa, eu vi Casturina!

 

A vi pelas sangas, de anil e sabão,

Gastando nas mãos a lã do tecido

E no catre macio de palha e pelego

Nos desassossegos de mais um marido!

 

Eu vi Casturina envolta nos lenços,

No cheiro de incenso, no chiar da chaleira,

E no sangue das veias que correm na história

Cobrindo de glória o brasão dos Ferreiras!!

 

Nas vestes de negro, nas brumas do pó,

No mimo da avó com a neta menina,

Na raça de bugra, na estampa de bruxa

E na história gaúcha eu vi Casturina!

Eu vi nossa história vestida de prenda,

Eu vi uma lenda da nossa doutrina

Eu vi uma mescla de índia e imigrante,

Eu vi o Rio Grande, pois vi Casturina!

Autor: Henrique Fernandes – Marau RS

Intérprete: Neiton Bitencourt Perufo – Bento Gonçalves RS

Amadrinhador: Clenio Bibiano da Rosa – Cachoeira do Sul RS

 

LUZ

Luz amarela

Que enfeita a janela

De um quarto de ronda.

Luz flamejante

Que brilha constante

Na lua redonda.

 

Luz que da vida

Na chama cativa

De paz e caminho.

Luz que enternece

A alma que aquece

Os tantos carinhos.

 

É em luz que desfolho

O brilho dos olhos

De cada alvorada.

Na luz que se escora

A pua da espora

Domando a potrada.

 

Por isso procuro

A luz no escuro

No rastro do campo.

Emplasto de açoite

Na calma da noite

De algum pirilampo.

 

Até mesmo na cruz

Encontro minha luz

De braço estendido.

Num homem pregado

Pagando o pecado

Sem ter cometido.

 

A luz da palavra

É o arado que lavra

A folha da terra.

A luz comovente

Que esparge paciente

As dores da guerra.

 

As luzes que espalho

Se banha de orvalho

De cada sereno.

Na benção da prece

A luz que enaltece

Meu mundo pequeno.

 

Na argola do laço

Que a força do braço

Da luz à uma armada.

Luzindo na guampa

De uma vaca pampa

-Cabeça entocada-.

 

Na camba do freio

De um pingo em floreio

Que a rédea sujeita.

A estrela na testa

Pra Dalva que empresta

A luz que lampeja.

 

Assim sem reclame

Se estende no arame

A luz do alambrado.

Na farpa do grampo

As luzes do campo

Me fazem costado.

 

Crepúsculo vivo

Que o ferro do estrivo

Esparge na encilha…

…traduz o encanto

Da lida de campo

Da ilhapa a presilha.

 

Distintos luzeiros

Que o fogo em braseiro

Abranda a mirada.

Das penas maduras

Das furnas escuras

De frias madrugadas.

 

Repito minha fala

Na luz que arregala

O olho da lua.

Cheita de anseios

Encontro em seu seio

Minha ânsia xirua.

 

A luz é a energia

Que aflora em poesia

Em cada vivente.

A luz é uma planta

Que do chão se levanta

De fecunda semente.

 

O espelho reflete

A luz que compete

Com a própria figura…

E adentro de si,

Se chora e sorri

Na mesma moldura.

 

De luz somos feitos

E a luz que sujeito

Transcende a essência.

Por isso vos falo

Que até meu cavalo

traz luz pra Querência.

 

A luz não assombra

Apenas faz sombra

Na imagem estendida.

Por isso Jesus

Fez do ser uma luz

Na estrada da vida.

 

Sextilha de luz

Que em luz se traduz

No branco papel…

Assim me confesso

Buscando o progresso

No rumo do céu!

Autor: Silvio Aymone Genro – Uruguaiana RS

Intérprete: Silvana Giovanini – São Lourenço do Sul RS

Amadrinhador: Adão Quevedo – São Lourenço do Sul RS

 

MAL FALADA

Chica Bacuda é a chinoca
Mais amada e odiada
E também a mais mal-falada
Entre as mulheres da vila!
(A língua do povo é ágil…)
E ela vende o corpo frágil
Em troca de poucos pilas.

Nos cabelos, flor do mato,
Na pele, cheiro de estrato,
Na boca o batom barato,
Que um mascate lhe vendeu…
– E pra o verso que eu preciso-
A ausência de um sorriso
Que há muito ela já esqueceu.

Chica Bacuda é a chinoca
Que os pias e moços desejam
E os coronéis esbravejam
Pra que lhe descalce as botas!
-Mas quem se importa com ela?
Seu rancho não tem tramelas…
Seu coração não tem portas…

No rastro da mal-falada
Mesclam-se botas lustradas
E alpargatas empoeiradas,
Testemunhando a má fama…
-Mas quem saberá o que sente
O coração de quem mente,
Amando quem não lhe ama?

Chica Bacuda é a chinoca
Que entrega seu corpo em troca,
Pra ter seus sonhos de volta
Na ilusão de ser feliz…
Pra que nunca mais precise
Carregar as cicatrizes
De uma vida que não quis.

À noite no catre impuro
Um par de olhos escuros
Brilham quais astros maduros
Em suas órbitas errantes,
Buscando desesperados,
Ver igual céu estrelado
No olhar vazio dos amantes!

Chica Bacuda é a chinoca
Que afronta e que provoca
Na alma de quem lhe toca
A dança mansa dos dedos…
– Mas e dos seus sentimentos,
Quem há de enxergar por dentro
Seus desejos e segredos?

Quem lhe condena não sabe
A dor imensa que cabe
E as feridas que ela abre
Nas almas mais insensíveis!
E que a hipocrisia
Silenciou nela a poesia
Com seus punhais invisíveis…

Chica Bacuda é a chinoca
Que de direito e de fato,
É mais um triste retrato
No álbum dos desencantos…
– Mal falada e preterida,
Pra poder ganhar a vida
Teve que perder-se tanto!

Autor: Moisés Silveira de Menezes – São Pedro do Sul RS

Intérprete: Romeu Weber – Osório RS

Amadrinhador: Cesar Augusto Furtado – Xanxerê SC

 

PAISAGEM DO SUL

Baio estrela, cabos negros

trote largo, Inácio Rosa,

recolutando recuerdos

pela estrada das missões .

Traz a ciência dos atalhos

da Sorocaba ao Rio Grande,

austera forja tropeira,

centaura cepa da Ibéria.

Volta no tempo a memória

trançando fios dos relatos,

paisagem de cada um,

timbrando a história de todos.

 

Singular painel agreste,

extremo sul do Brasil,

planuras, coxilhas, serras,

rios, lagoas, sangas claras.

Homens fazendo história

desenhando a geografia,

riscando mapas e rumos.

Três mundos miscigenados

lusos, mouros, espanhóis

índios pampas, guaranis

etnias outras mais tarde,

nas levas imigrantinas.

 

Fronteira, linha inconstante,

horizonte sempre adiante.

Mulheres de origens várias

formam exemplos e homens,

braços para espada e lança,

mãos pra rédeas e destino,

olhos além das lonjuras.

Monge, guerreiro, pastor,,

circunstancial personagem ,

trama de lágrima e sangue.

O sul tem verbo e cavalos

vocação, fibra, coragem.

 

Não raro foi que as mulheres,

bem acima das façanhas,

de armas potros e gentes

fizeram rodar o tempo,

templaram filhos e netos

cerzindo fios de silêncio.

A tetravó, matriarca,

cultura da antiga Prússia

enfrenta os ventos do sul,

Visão maior que a quimera

paisagem de vida e tempo

gestada na solidão.

 

Muralhas de pedra bruta

memória contada em ruínas,

atemporal testemunha,

legenda que não se olvida.

Fortim, mangrulho, trincheira

nos primórdios do Rio Pardo,

fortaleza em meio ao nada,

ao redor pasto e distância.

Um punhado de valentes,

identitária paisagem.

Um cerne de tetravô

pra fazer pátria e família.

 

Vida e tempo se entrelaçam,

saberes que se acumulam,

memória que se transmite

odisseia rio-grandense!

A cada choque brutal,

algum ancestral terrunho

matizou com sangue a tela,

pra surgir nova aquarela,

promissora tessitura

que fez do gaúcho um mito,

na forja das sete provas,

dos mistérios do Jarau.

A vida, paisagem viva,

gerações que se sucedem,

herança que se eterniza

na memória dos relatos,

avoenga sabedoria.

Três raças miscigenadas

imponente concepção

história, mitos e lendas.

Dois séculos de contendas

fronteiras redesenhadas ,

moldam o mapa da terra

ao coração da sua gente.

Autora: Joseti Gomes – Gravataí RS

Intérprete: Silvana Andrade – São Lourenço do Sul – RS

Amadrinhador: Adão Quevedo – São Lourenço do Sul – RS

 

RETRATO DAS QUATRO MOÇAS

Quatro moças perfiladas posavam para o retrato…

Quatro desejos distintos sob a estampa colorida…

Quatro olhares pra vida, sem traços de sofrimento…

Uma lente revelando quatro moças bem vestidas…

 

A mais nova era morena, olhos de fundo de poço…

Segredos mui bem guardados na aparente calmaria…

Pra quem conheceu Luzia pouco falou-se da cuja

ali, com os pés descalços, sem vaidade ou rebeldia…

 

Tereza olhava o incerto, talvez prevendo o destino…

Luvas cobrindo os dedos que bailavam pelas cartas

escritas nas madrugadas, onde corujas curiosas

espreitavam sorrateiras uma entrega encabulada…

 

Rosário, em dentes miúdos, sorria um risinho bobo…

Cabelos em desalinho, voando no campo em flor,

pura, dos traumas da dor, livre, tal qual sua alma,

ignorando os olhares da cobiça e do amor…

 

Mas eram quatro, as moças… E foi de fato, em justiça

deixar pro fim o registro de dar nome a rapariga…

Chamavam-na de Marica, sem medo de temporal…

Era o próprio vendaval roubando a paz e as vidas…

 

Todas as quatro, aprumadas, sob a parreira madura.

Todas vendendo respeito como pedia o momento.

Quatro certos casamentos que nunca aconteceriam,

pois as quatro se negaram aos freios dos sentimentos…

 

Cada uma com sua sorte conforme as quatro estações…

Luzia foi-se com as folhas, que amadurecem no outono…

Tereza, não teve dono, vendendo cor e perfume…

Rosário se fez fumaça nos verões de muitos anos…

 

Porém ficara a Marica emplumando suas asas…

Na sombra em frente à casa prevendo seca ou enchente,

era a tal presença ausente que uiva em noites escuras,

perdida nas madrugadas, que deita junto co’a gente…

 

Marica era um assombro desses que quebram silêncio…

Gritos de almas penadas, era sonho e pesadelo…

Tinha um ruivo nos cabelos ardendo junto a ferrugem

que pintava a pele branca, na plena ausência de apelos…

 

Qual o destino das moças? Talvez desviar caminho

dos que colocam cabresto… Talvez sequer ter destino

num mundo tão masculino onde casar e ter filhos

era a decência das casas nos vastos campos sulinos…

 

Quatro moças bem vestidas posaram pra um retrato,

que agora enfeita a parede da tapera abandonada…

Quem passa nestas canhadas, não resiste ao chamamento,

das moças, sem sentimentos, que são fantasmas, mais nada

Autor: Osmar Antônio Ransolin – Fraiburgo SC

Intérprete: Pablo da Rosa – Chapecó SC

Amadrinhador: Adriano Claro – Taió SC

 

O TROPEIRO

– Lá vem o tropeiro!

O tropel na estrada

Da rica mulada

Que traz o cargueiro,

Vem pelo entreveiro

De mato e picada

Fazendo a tropeada,

“Que ofício mais duro!”

Não vê o futuro,

Somente o passado.

De estado em estado

Sem porto seguro.

 

– Lá vem o tropeiro

Com sua mulada!

Na carga atada

Com tento e sovéu…

Seu nome Miguel

E sua vida é tropear.

Carrega no olhar

A dor do menino

Que cresceu teatino

E hoje é tropeiro:

Ofício estradeiro

Que lhe impôs o destino.

 

Os jagunços mataram

Seu pai numa encerra,

É órfão de guerra

De lutas passadas.

E trilhando as estradas

Vai levando a tropa,

Na chuva que ensopa

No sol que não erra,

Miguel é a terra

É a força tropeira,

É a alma guerreira

Que morre e não berra.

 

Vai pelas andanças

De estrada e de pó,

Mas nunca anda só

Pelas vizinhanças:

Lhe seguem crianças,

Os cães e o gado.

Destino mapeado

Com sonhos e prendas,

Por chitas e rendas

Em bailes campeiros,

Às vezes potreiros

De alguma fazenda.

 

O cavalo garboso

De pêlo encerado,

Vai bem encilhado

É mais um consolo.

No chão de tijolo

De trote picado

Vem bem entonado

No andar soberano,

É o velho “Tobiano”

Parceiro da lida

– No volteio da vida –

É quase que humano.

 

Os guris e a prenda

Deixou na tapera,

Na longa espera,

“Mas que triste sina!”

Já nem mais atina

Quantas primaveras

O tempo tempera

No lombo do clima…

Seguindo a rima

Por quem lhe venera,

Se é homem ou fera

Na amarga vindima.

 

Por todos os dias

Se vai o tropeiro…

Caminho, carreiro,

Tem suas manias.

Na lenta agonia

De um mundo inteiro,

Seguindo o roteiro

Do seu troperear.

O sonho a embalar

A velha ambição,

De um dia então

Não ir – nem voltar.

 

Já foi-se no tempo

Das lidas de outrora,

Calçado de esporas

E poncho ao vento.

Dormindo ao relento

Acordando na aurora,

Pelo campo afora

E noite adentro.

Pisar lamacento

Das chuvas de maio,

E o ranger dos balaios,

Num triste lamento.

 

Me igualo ao tropeiro

Nos tempos de agora…

Também vou embora

Buscando dinheiro,

No ofício campeiro

De ir e voltar!

Pois sei que “chegar”

Pra quem tem onde ir.

– Vou admitir

Só neste contexto –

Que é mais um pretexto

Pra gente partir…